É comum em Murici passar, todos os anos, uma banda com mais ou menos quatro músicos, cada um com seu instrumento, geralmente pratos e caixa de bateria, zabumba e pife (ou pífano) e mais duas pessoas, uma a cada lado da rua, carregando uma imagem de santo em fotografia emoldurada acoplada de um ramo de planta. Não tenho informações sobre se é o mesmo santo que em todos os anos é a figura carregada por este grupo, que dessa vez foi composto por 4 homens (músicos) e duas mulheres (carregadoras da imagem emoldurada). Os indivíduos não são sempre os mesmos que fazem parte deste grupo. Em entrevista quando os abordei, um músico (o de pife) disse que era contratado para tocar e que estava fazendo isso para arrecadar, além de dinheiro, objetos mais variados para a novena de Santa Luzia, que ocorreria ainda neste mês de novembro, em Maceió. Além disso, o músico informou-me que veio no ano passado por aqui e que faz o trajeto das cidades entre Maceió até a cidade de União dos Palmares. Percebi que em sua cesta que carregava nas costas haviam ovos de galinha, e percebi também que uma vizinha minha deu um frango vivo para eles levarem.
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Em conversa entre os integrantes desse grupo, ouvi o tocador de pífano pedindo que, nas casas de senhoras, a mulher carregadeira da imagem e pedinte de porta em porta pedisse da próxima vez uma calça para um dos rapazes músicos, além de água.
A banda de pife, passando na cidade de Murici, é uma tradição tão comum que as pessoas não costumam sair de casa neste momento singular para ver a banda passar, nem que seja só por um dia, por alguns minutos. É comum, obviamente, que há excessões em que alguns saem, até para contribuir. Outros só percebem o grupo de dentro da própria casa, através da janela. Mas a maior parte da população que geralmente se encontra em seus aposentos e não saem para ver a banda, reconhecem do que se trata, dado o ouvido para afirmar-lhes que há um grupo passando de casa em casa, movidos à música, em busca de contribuições para a santa (e talvez outros santos, não se sabe ao certo a respeito das outras aparições destes grupos), justificada só pela imagem carregada nas mãos dos pedintes. Não tenho registros em memória, como cidadão que sou desta cidade, sobre algum som batido e num ritmo de sertão seguido de uma melodia fina passando no meio da rua como expressão religiosa ainda esse ano, o que reforça a ideia de que o dia da banda de pifes em Murici é limitado geralmente a uma vez por ano. Falta-me a informação sobre se há algum mês específico para este evento.
É engraçado que nos tempos criança, diante dessas bandas, eu tinha medo de ir para a rua. Achava amedrontador o som da bateria e estranho o grupo, feito de pessoas tão comuns em suas roupas de cotidiano, passando de porta em porta. Meus primos mais velhos brincavam com aquilo, e ao perceberem meu temor, diziam que iriam doar-me para que eles me levassem, o que torna semelhante às ameaças de sanções que a família impõe à criança malcriada, ao citar o "velho do saco" e outros personagens da cultura popular que muito se vê arraigado por aqui.
Talvez este mesmo medo que eu tinha exista por parte das novas gerações, mas isso é só especulação, necessitando haver uma pesquisa sobre esse aspecto.
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2 comentários:
PS: Busquei na internet a fim de encontrar informações sobre o local dessa possível banda. Encontrei este endereço referenciando este nome Banda de pífanos de Santa Luzia, mas não sei se se trata do grupo que por aqui passou, ou se apenas é um grupo artístico com nome coincidente.
Banda de Pífanos Santa Luzia
Augusta Maria
(82) 3324-3734
R. Nova Brasília, s/nº
Tabueliro do Martins
Gostei muito o fato de registrar essa manifestação religiosa tão sutil e ao mesmo tempo tão resistente aos "tempos modernos". Lembrei, que quando criança conheci um tocador de pife chamado Jota Felixis, um grande amigo de meu pai, até hoje ele toca o tal instrumento, é um amante do que faz, preserva até hoje essa tradição.
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